Reclames médicos...
Em 28/09/2023 em Porto Alegre, durante o 78o. Congresso da SBC, com outro livro do mesmo autor
A leitura do recente livro de meu amigo Dr. Aristóteles Comte de Alencar Fo., “Reclames Médicos na Manaus Antiga”, além de fazer um inventário dos médicos que por lá passaram desde 1872, traz um retrospecto histórico da evolução da Medicina, e propicia a discussão de vários aspectos éticos, política de saúde e desenvolvimento sócio-cultural, numa perspectiva de século e meio.
Coincidência que não muda nada, mas foi um século depois, em 1972, que novos encontros mudaram minha perspectiva histórica...
Poderia dizer que a metade deste período eu acompanhei daqui do extremo sul, com minhas vivências, informações que me chegavam, e em contato direto com a profissão há setenta anos. Não somente assisti o espetáculo, mas estive em cena como um dos protagonistas durante um bom período.
Embora se diga que o progresso da ciência e tecnologia foi vertiginoso nesta segunda metade, nada indica que tenha chegado ao fim ou que vá mudar o seu ritmo. Como será que o “Dr. Aristóteles” de daqui há duas gerações irá nos retratar?...
Entretanto não é isso que tem me ocupado. Minha atenção tem se voltado para a persistência, ou até aumento de problemas de saúde a nível populacional, apesar dos progressos que se podem alinhar nesse período. A primeira explicação que me vem, é que embora tenhamos tentado manejar as causas das doenças, nada foi feito pelas causas-das-causas que em geral estão situadas fora do setor saúde, e mais distantes das mãos e da preocupação dos médicos…
Tive um papel significativo na revolução que se deu no início desta segunda metade, quando problemas de saúde que eram somente abordados no final da história natural, e em países ditos desenvolvidos, e não se constituiam em preocupação de saúde pública, passaram a ser objeto de estudo epidemiológico, e preocupação dos sistemas assistenciais.
Minha formação básica era clínico-cardiológica, com recursos que estavam despontando no momento, mas depois de ter participado de uma análise institucional da nossa Secretaria da Saúde e Meio Ambiente, ao confirmar que não tínhamos elementos para descrever nem programa para enfrentar nossa realidade sob o ponto de vista cardiológico e de doenças ditas crônicas não transmissíveis, tive a petulância de apontá-lo para o Secretário da Saúde de então Dr. Jair de Oliveira Soares, o que ele transformou em desafio: “Se não existe, porque não propões?...”
A partir daí (1972), e minhas interações com as Organizações Pan Americana e Mundial de Saúde, passei a ajudar a fazer marola, e virei garoto-propaganda pelo mundo afora, de uma onda que logo se avolumou, penso que não tanto pela consciência das necessidades, mas pelos interesses industriais e comerciais implicados.
Aliás, não querendo discutir os aspectos éticos relacionados, acho que nos faz falta exatamente essa esperteza e oportunismo na abordagem dos problemas de saúde populacionais, buscando as saídas, não somente, mas também, pelos pretextos econômicos, garantindo o sucesso no mundo real.
Sinto-me comprometido com um desvio da atenção que privilegiou o novo grupo de problemas, deixando estagnados muitos dos antigos que ainda persistem, nos ameaçam, fazem sofrer, e comprometem parte importante da população que poderia ser mais produtiva.
Quem sabe, já que estamos constatando o problema, não seria preciso ouvir novamente o desafio do Secretário da Saúde de então: “Não existe? Então, porque não propomos?”